01 de Novembro de 2008

Comecei o que parecia ser uma noite de sexta-feira banalíssima. O jantar estava péssimo. Custou a engolir. Comi sozinho como já vinha a ser hábito. O ambiente estava pesado e sabia que a noite não iria correr nada bem. Decidi sair. Libertar-me. Perder-me. Fazer de tudo para que a minha vida não me fizesse lembrar constantemente aquilo que me fazia falta e me trouxesse um bocado de sossego.

Estava nevoeiro. Mas nevoeiro mesmo. Daquele nevoeiro em que mal se conseguia ver palmo e meio à nossa frente. E estava frio. Pela primeira vez desde que o Outono começou, senti que estaria melhor lá fora, no meio do frio, que aqui dentro. Qualquer sítio já era melhor que aqui.
Vesti as camadas de roupa, coloquei o gorro, o cachecol e a gabardina. Saí.

O nevoeiro está tão espesso. O nevoeiro é tão espesso que as luzes dos candeeiros desfocam-se de tal forma que parece alaranjado. Como se eu tivesse sido transportado de alguma forma para um planeta qualquer marciano. E o frio. O frio é tanto que parece que estou a atravessar uma parede de facas e que elas se vão afiando na minha cara. As lâminas a rasparem na minha face, deixando os meus olhos lacrimejantes. Mas o resto está parado. Não há sinais de vida. Parece que eu estou a andar na berma do mundo e que tudo o que existe acaba logo ali, ao virar da esquina daquele prédio que o tempo ameaça.

Está uma bela noite cá fora. A noite assim está-me a puxar para fumar. Já não fumo há dois dias. Ando sempre com o maço no bolso mas raramente pego nele. Hoje é diferente. Parece um delírio. Eu, neste planeta esquecido, mergulhado neste nevoeiro espesso, andando. Como se eu fosse o único testemunha desta noite. Procuro um lugar para me sentar. Um lugar relativamente abrigado. Ando o que parece serem horas nesta alucinação, sem ideia de onde estou, ou de onde vim, nem sequer se estou no mesmo bairro. Ando até que me deparo com uma entrada de um prédio, suficientemente alta para me sentar. Acendo um cigarro, olhando para a fileira de manchas alaranjadas, luminosas e assombrosas. O frio dá-me um estalo e encolho-me, abrigando-me o mais possível dentro do casacão. A sensação de ser a última pessoa viva está a ser um estanho conforto. A percepção de que nada existe para além de mim e que sou o único espectador. Que, de alguma forma bastante surreal, a minha solidão tem justificação. Como se eu estivesse sozinho para poder absorver as experiências do universo. E sei que ninguém irá compreender isto porque ninguém pára para ver. Para ver a simplicidade de uma luz de um candeeiro. Que a beleza dela não está na sua forma nem na sua utilidade, mas em como ela parece imensas coisas em diferentes alturas dos dias. Ou como a sua luz nunca é a mesma. Ou, como em noites como estas, ela deixa de ter limites e está unida a tudo o resto por uma camada espessa de vapor. Acabo o cigarro, ergo-me e continuo o meu passeio, regressando a casa de alguma forma.

Não tenho grandes memórias desta noite. Tenho uma vaga memória de me ter sentado algures. Num local que nunca mais encontrei e que fumei um cigarro algures durante a noite, apreciando uma luz alaranjada, difusa. Mas o resto da noite está-me quase apagada da minha memória, como se eu estivesse bêbado.

Não me lembro de mais nada, a não ser que adormeci exausto. Depois de andar durante horas descobri-me a ir para casa enquanto amanhecia. E o laranja do nevoeiro já começava a ficar cada vez mais acinzentado. Lembro-me de entrar em casa, ir para o meu quarto e deitar-me, completamente vestido, e adormecer.

E lembro-me de acordar bem disposto, a meio da tarde.
publicado por Arms às 02:02
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verdade, as vezes é preciso parar o tempo para reparamos nas coisas simples k encontramos muitas vezes todos os dias e n lhe damos kualker importância ou significado.
A sensação de ser a ultima pessoa viva... para mim é a mesma koisa k deixar de ter compromissos, responsabilidades, problemas. completamente livre sem ter k me preocupar seja com o k for.
I_can_see a 4 de Novembro de 2008 às 01:35
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