21 de Novembro de 2007

É uma daquelas noites, daquelas em que a manhã demora a chegar. Ando pela casa vazia, silenciosa numa tentativa de me cansar ao ponto da exaustão porque não paro de pensar em tudo o que aconteceu. É o nosso aniversário. O aniversário da nossa separação, digo. Mais uma vez. E, desde então, esta casa me parece enorme e claustrofóbica ao mesmo tempo. Tendo este espaço todo só para mim - e aquela cama enorme - completamente atulhado dos objectos. Dos teus objectos ou dos objectos que me fazem lembrar de ti a cada segundo que passo nesta casa. Vegetei demasiado tempo nesta casa, que tornei no meu casulo contra tudo e todos. Tempo até demais. Para onde quer que olhe só tenho memórias dos meus sucessivos ataques de choro e de raiva. E o corredor. O longo corredor que percorre a casa e que me traz as memórias de ti a sorrir lá ao fundo, como um convite para um mundo paralelo - onde só existíamos eu e tu! Mas já não estás aqui. E eu persistia na ilusão de ainda aqui estares. Percorria as divisões sempre na ânsia de te ver ao virar a esquina. Ou sentado no sofá a ver o canal desportivo. Ou de te ver na banheira a tomar um duche. Ou de te ver a entrar pela porta depois de um dia de trabalho. Como tenho saudades do teu "cheguei" ao fim de cada dia. Começou por aí, por essa palavra banal e subvalorizada, todo este silêncio. Este silêncio ensurdecedor que ecoa até ao fim da memória do tempo nesta casa. Minto. O silêncio começou mais cedo. Naquele momento em que tudo terminou. Sem um "adeus", um "desculpa", um "vemos-nos por aí". Bolas! Eu até me contentava com um "vá, cuida-te"! Houve apenas aquele silêncio. O silêncio que se arrastou até este preciso momento.

Acho que chegou a altura de te abandonar aqui, nesta casa. Não por te ter deixado de amar - nunca te deixei de amar - mas porque penso que chegou a altura de libertar-te das correntes que te coloquei - e das correntes que me coloquei consequentemente - e de deixar-te ir. Para eu viver também. As lágrimas secaram e os soluços compulsivos acalmaram. Os gritos cessaram e o meu coração sarou. Sim, penso que chegou a minha altura de abandonar esta casa. Desculpa por vender os teus objectos e os nossos móveis. Desculpa por vender as tuas memórias. Mas é algo que tenho que fazer. Amanhã não estarei mais aqui. Por isso, este é o meu adeus, desculpa e vemos-nos por aí. Vá, cuida-te!
publicado por Arms às 23:28
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Lindíssimo e de uma tristeza imensa a acompanhar cada frase, cada parte dela.
Sei tão bem o que aqui traduzes, tão bem.
É das mais profundas dores estar numa casa cheia de imagens, sons, silêncios, cheiros... que lembram alguém que dela partilhou connosco. Alguém que partiu e de forma tão crua.
Este texto mexeu imenso comigo.
Graduated Fool a 22 de Novembro de 2007 às 00:21
Só tu!
Fiquei preso até à última linha. É o efeuto curativo do tempo, das vivências, dos momentos que passamos a vivenciar com outras pessoas.

Mas, claro. Depois há o espaço físico que nos inunda de recordações sofridas. E aí, aí sim é preciso partir. Pôr tudo para trás das costas e seguir sem medos. Já falámos sobre algumas coisas, mas nunca sobre a perda. Um dia disse a alguém que tinha medo de ter "saudades a sério". Não tenhas tu o mesmo fantasma!

Aquele abraço!
Kokas a 22 de Novembro de 2007 às 11:59
graduated fool - fico feliz que tenhas gostado!

kokas - isto é uma suposição minha mas, para se ter saudades "a sério" é preciso ter-se sido amado "a sério". Penso eu! E este texto foi apenas um texto que escrevi de improviso para acrescentar aos meus outros textos.
Arms a 22 de Novembro de 2007 às 23:51
Muito bonito e tocante. Sei como é. Ter vontade de nos desfazer-mos de certas coisas que nos trazem certas memórias, que num primeiro momento até estão conotadas a bons momentos, mas depressa, ao pensarmos um pouco mais, nos trazem más recordações. Espero que ultrapasses isso rapaz, julgo que não mereces viver assim nessa agonia para sempre.
TheTalesMaker a 24 de Novembro de 2007 às 16:35
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