06 de Dezembro de 2007

- O que estás aí a fazer agachado no escuro?
- Estou à procura de uma peça. Quem és tu?
- Já não me reconheces?
- Devia?
- Quer dizer... penso que sim. Sou eu, o Rui.
- Ah, bom! Então ajuda-me a procurar a peça. Não sei onde o deixei.
- Como é que é?
- Bem. Não sei bem. Não me lembro.
- Como é que não te lembras?
- Perdi-o há muito tempo. Só me lembro que o tinha sempre comigo.
- Mas, se o perdeste assim há tanto tempo, porquê procurá-lo agora?
- Preciso dele. Para viver.
- Como assim 'para viver'?
- Ora. Para viver. Tu sabes, sentir, correr, amar, sorrir. Viver!
- E precisas da peça para isso...
- Certo.
- E a peça tem nome?
- Penso que se chamava coração, mas não me lembro. Não o vejo há tanto tempo...
- Mas, isso sou eu que tenho.
- Ah, então podes devolver-mo. Preciso dele para viver.
- Mas foi uma prenda tua. Deste-me o teu coração como sinal do nosso amor.
- Estás a precisar dele agora? Namoramos?
- Bem... não!
- Então porque reclamas? Se não precisas dele podes devolver-me. É que preciso dele.
- Pensei que o poderia guardar como recordação. Daquilo que tivemos juntos.
- Não queres que eu volte a viver, a sentir? É isso?
- Não...
- Não queres que eu seja feliz?
- Não, nada disso. O que mais quero é que sejas feliz.
- Então podes devolver-me o coração. Porque preciso dele.
- Mas...
- Ouve. Nós estivemos juntos, namorei contigo e dei-te o meu coração. A partir desse dia fiquei preso a ti. Quando me abandonaste não pude avançar na vida porque precisava do meu coração. Mas, na altura não sabia disso. Quando te esqueci não pude avançar na vida porque precisava do meu coração e não sabia disso. Agora que sei o que preciso gostaria que me desses o coração de volta.
- E dás algo em troca?
- É preciso ter lata! Eu dei-te muito. Dei-te tudo o que tinha. Não o quiseste na altura. E queres algo em troca?
- Sim.
- Deves estar a gozar comigo. O que queres em troca afinal?
- O meu coração.
- Como?
- Sim. O meu coração.
- O que te faz pensar que sou eu que o tenho?
- Porque dei-te o meu coração para que não te fizesse falta o teu.
publicado por Arms às 01:22
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oh wow... com a ultima frase até deu para estremecer um pouco. A troca é realmente tudo o que importa, como podemos esperar o coração de alguém, sem ao mesmo tempo, oferecer-mos o nosso. (sigh...) Abraço, L
L a 6 de Dezembro de 2007 às 02:40
Bonito texto.
O Paspalho a 6 de Dezembro de 2007 às 13:43
Texto Lindo! Incrivel, adorei mm! �s t�o rom�ntico hihi! Quem me dera escrever dessa forma!
EroS a 6 de Dezembro de 2007 às 14:32
MUITO BOM!
Mas amigo, isso tem um preço... um preço tão alto que não sei se estarei algum dia disposto a pagar!

Aquele abraço!
Kokas a 6 de Dezembro de 2007 às 15:34
Extraordinário... é o adjectivo que me ocorre.
Graduated Fool a 7 de Dezembro de 2007 às 00:27
Este texto é lindo. Se no início estava tenso porque achei rídiculo a atitude de alguém não querer devolver o coração de outra pessoa, fiquei completamente arrebatado com o final.
Fiquei entre pasmo e reflectivo.
TheTalesMaker a 10 de Dezembro de 2007 às 00:01
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