01 de Agosto de 2007

Acordou bem cedo. Acordou tão cedo que ainda nem estava claro. Ele nem sabe porque razão acordou tão cedo, não é habitual. Mas, tendo em conta que nada na vida dele está como estava antes... Levantou-se e deambulou pela casa silenciosa. Os outros seus colegas ainda dormiam. Andou pela casa fora talvez procurando uma forma de se cansar de novo mas não conseguiu. E, durante uma das várias passagens pelo corredor, reparou que as paredes estavam a fechar-se sobre ele. Uma sensação de claustrofobia que ele desconhecia. Vestiu-se, saiu e foi andar pela rua.

A rua salpicava-se de pessoas, talvez também elas perdidas como ele. Havia no ar uma senação de não pertença, que ele não devia de estar ali. Ou talvez uma sensação de insatisfação.

Ele nunca esteve neste local antes. Ele nunca quer voltar. Mas ele não sabe como sair.

Tudo o que tem feito tem-lhe explodido na cara e dado para o torto. Perdeu-se de tal forma nas suas sucessivas derrotas que ele já não é a pessoa que foi, a pessoa que devia de ser. Tem sonhos. Todos temos sonhos. E esses sonhos pairam em volta da sua cabeça como gotas de chuva que se congelaram em pelo vôo. Ele tem esperanças, mas essas caem ao chão como granizo, ecoando, uma a uma, na sua mente. Aos poucos o que resta é um recipiente vazio. A sua alma. A parte da sua identidade que ele esqueceu de dar atenção. Fez o culto da mente saudável e fez o culto do corpo saudável. Mas a sua alma implora por atenção. E ele perde-se nos lamentos e nos choros da sua alma, impotente, por não saber o que fazer. Esteve tanto tempo sem falar com a sua alma que se esqueceu da linguagem que ela usa. Os seus choros e os seus lamentos caem todos por terra, irreconhecíveis por ele. E ele não sabe o que fazer.

Continuou a andar sem destino, sem rumo. Perdido nos seus pensamentos e na sua identidade que nem reparou no dia nascer e nas ruas se tornarem mais claras. Chegou mais uma vez à beira do rio, sem saber sequer como lá foi parar, e sentou-se num dos muitos bancos sarapintados por ali. E, como havia feito antes, chorou sem saber que chorava e lamentou sem saber que lamentava. Mas desta vez não lhe apareceu aquele sentimento de possibilidade... O que lhe apareceu e lhe fez companhia foi a sua noção de derrota. E chorou uma vez mais perante a noção de que se afastou tanto do seu rumo, daquilo que lhe identificava, sob o ilusório pretexto de estar a melhorar a sua vida. E, pela primeira vez na sua vida, sentiu mesmo as garras do desespero, cravando as suas unhas infectadas no seu coração. Abrindo feridas fechadas e lembrando-o que muito há a fazer. Talvez tudo!

E ele não sabe o que fazer. Continua sem saber o que fazer.

Levantou-se e voltou para casa. E, pelo caminho, surgiu uma pequena resposta. Foi esquecida mas ele tem esperança que a resposta volte... ou que caia mais granizo!
publicado por Arms às 18:19
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