01 de Maio de 2006

(Mais um texto de 1998.)

Foi há quase 43 anos o dia mais feliz da sua vida: o dia do seu casamento. Ela usou aquele vestido com tanto orgulho, mais até que muitas mulheres do seu tempo. Parecia tudo tão perfeito nessa altura, tão quente, tão feliz. O contraste perfeito do frio e solitário hospital. Aqui os únicos sons eram os das máquinas de suporte vital. Cheirava a desinfectante, para que todos soubessem que nem os germes nem as bactérias pudessem fazer aqui os seus ninhos. Havia poucas enfermeiras de serviço, mas só fariam as suas rondas bem depois do nascer do dia. Ali, o tempo parecia correr a passos lentos, como se todo o quarto estivesse debaixo de água. Até o chão e as paredes pareciam cansar-se das suas existências. Incontáveis pacientes haviam decerto se questionaram se o inferno seria assim tão só e desolado. Mas ela já nem reparava, já lhe era habitual essa ambiente aquoso.

O vazio dentro dela tem crescido e alimentado dela há já algum tempo, mauito mais do que se recordava. Ela perdeu tudo na vida. O seu único filho, roubado e exibido como prémio por um desconhecido tipo de cancro; todos os seus amigos mudaram-se ou morreram. Mas ela tinha o seu marido. Ele sempre a amou, ele sempre se preocupou. Ela dependia dele como o seu único conforto nos momentos mais difíceis da vida, e houve apenas pequenos momentos em que ela se desprendia. Nunca pensou que seria capaz de aguentar 5 anos separada dele, via essa sua força como uma praga. Ochoque poderia ter sido evitado, provavelmente, se ele tivesse seguido as instruções do médico e exercitado. Nunca teria caído neste coma inútil. Mas ele sempre foi demasiado orgulhoso para isso. E ela detestava esse seu orgulho acima de todos os seus defeitos. Fora a única coisa que lhe causava problemas. Ela tolerava-o no passado. Agora, arrepende-se profundamente.

E ela sentava-se ali, pensando em todas as dores que teve... e como a vida era inútil. Mas estava cansada demais para ter pena. Por isso, ficou calada a noite toda, esperando que o sol trouxesse um sinal do seu 43º aniversário de união, e o 5º desta tragédia. Tudo o que ela queria era ver o sol sobre a face dele uma última vez antes do fim. E as horas caminharam lentamente até que os raios pálidos da luz penetraram no quarto comum dia novo de falsas esperanças. Ela ergueu-se, mal conseguia sustentar o seu velho corpo exausto e aproximou-se dele. Beijou-lhe os lábios, e isso doeu-lhe. Seria a única coisa que sentiria falta. Um preço alto a pagar. As suas mãos ossudas lentamente removeram um jarrinho de aspirinas da sua bolsa. Ingeriu, comprimido atrás de comprimido, as cinquenta aspirinas e engoliu-os com a água estagnada do quarto. Ela já conseguia sentir a droga a chamar pela sua vida enquanto se sentava mais uma vez, libertando as suas pernas eternamente da sua dura tarefa.

Se alguém estivesse presente, teria descrita que fora a forma menos graciosa te terminar com uma vida graciosa. Entrou rapidamente no sono e, logo depois, o seu corpo desistiu da sua luta. Cerca de uma hora depois os médicos encheram o quarto com as suas máquinas, quase que nem ligaram ao corpo da velha senhora. Estava preocupados com a saúde do seu marido. O seu coração havia parado de bater e, apesar de todos os esforços, nunca mais seria reanimado. Os médicos classificaram como morte natural e não ligaram mais ao caso. Os dois foram enterrados, lado a lado, ao pé do local de descanso de seu filho de 19 anos no cemitério local. O quarto do hospital foi arrumado para dar lugar a uma próxima vítima... para perder a sua esperança. Mas, por desta vez, o tempo rastejava um pouco mais depressa.
publicado por Arms às 12:32
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