15 de Novembro de 2007

Sento-me outra vez neste canto do café. O canto que já me conhece tão bem e cuja cadeira almofadada já tem quase a forma do meu corpo. Os próprios empregados já me conhecem e acontece muitas vezes eu estar a contornar a esquina e ver pela janela eles a tirarem já o meu café e o meu típico pastel de nata para que, assim que me sento, ter já as minhas coisas. Aliás, já tenho coragem suficiente para dizer que pode pôr na minha conta sem que isso cause qualquer transtorno. Pode-se considerar que eu seja um cliente habitual. Já trato todos pelos nomes. Sim, acho que já sou um bom cliente habitual.

Tudo indicava que hoje seria mais um dia banal como outro qualquer, onde eu me sentaria, beberia o meu café, com intervalos trincados ao pastel de nata (com açúcar em pó, porque não aprecio canela) e os habituais pensamentos rabiscados no caderno manchado de chuva, café e outras incontáveis manchas irreconhecíveis por entre as folhas. E tomate, daquela vez em que fui ao Pizza Hut comer uma refeição à pressa antes daquele encontro furado à chuva. Enfim. O dia parecia-me como outro qualquer. Eu, mais os meus vícios de longa data, começados em tempos esquecidos, e as minhas memórias atormentadas de relações furadas à chuva (tanto no sentido metafórico como no sentido lato). E rabisco estes pensamentos a conta-gotas sobre o papel amarelado, com umas manchas arroxeadas e vermelhas e algumas a sépia no canto, tentando enganar o tempo. E, entre os pensamentos, vou vendo o que se passa no café e na rua. Não sei, talvez numa tentativa de esquecer-me de algo que me lembrei de momento. Ou lembrar-me de algo que estava esquecido. Olhando e vendo as pessoas a correrem de um lado para o outro, com os seus casacos e pastas e as suas agendas cheias de horas marcadas ao segundo para aproveitarem ao máximo o dia sabendo, de antemão, que metade das coisas vão ficar para amanhã (ou para depois) e os cafés marcados com os amigos serão adiados para o próximo mês e tal.
Mas, numa dessas pausas de pensamentos e rabiscos, vi-te. Não te vi entrar. Não te vi sentar. Nem tão pouco me apercebi do facto de teres ficado, quê, uns bons quinze minutos a olhar para mim. Assustei-me de início, desviei o olhar, sabendo mesmo que sabias disso e já tinhas apercebido antes. Olho de novo para ti, anónimo hipnotizador. Sorris um sorriso tímido, ousado e esmagador. Desvio o olhar porque, com essa, puseste-me a nu. Pronto já sabes. E o pior é que sabes que não me és indiferente. Confesso que já não estou habituado a isto. Já passou muito tempo desde que me lançaram olhares destes. Aliás, já passou demasiado tempo... para ter que me forçar a lembrar disso. E, pouco a pouco, vou cedendo aos teus olhares e aos teus sorrisos. Sorrio um sorriso tão tímido, tão envergonhado que te ris. Sabes como controlar-me. Descobriste em poucos segundos. E sabe-te bem ter-me ali... e nas tuas mãos. E ficas aí, virado para mim, a sorrir e a olhar, com os teus olhos dourados, sob essa luz ofuscante do Sol. E eu respondo-te involuntariamente, enfeitiçado pelos teus olhos de amêndoa e mel, brilhando aquosas, sobre mim. Como se me vissem a alma. Levantas-te e eu congelo. Aproximas-te e eu tremo. Aproximas os teus lábios rosados, em perfeito arco, e murmuras-me, com essa voz levemente grave e timbrada, com 'esses' silvantes, como as cobras, o teu nome. E colocas a tua mão sobre o meu ombro quando me entregas o papel. E partes para a tua vida. E fico congelado a olhar para a porta.
Abro o papel depois de me recompor e leio: "Procura-me tu agora. Porque eu levei a minha vida toda à tua procura."

E lá está o teu número e uma pista de onde te encontrar. E os rabiscos do caderno de folhas amareladas com manchas de irreconhecíveis momentos ficou no café, esquecido.
publicado por Arms às 20:02
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Tens que me contar que café é esse. Também quero um gajo assim para mim. Um Don Juan, ao que parece.
O título deste teu post fez-me lembrar uma música que adoro e ouço-a vezes e vezes em conta ultimamente: "In Your Eyes" da minha diva, a Anastacia.
TheTalesMaker a 15 de Novembro de 2007 às 22:05
É ficção, textos que vou escrevendo. Curiosamente num caderno com manchas de café. :P Olha quem me dera também encontrar um café assim... E um Don Juan destes!

Enfim... Quanto à música, desconheço-a!
Arms a 15 de Novembro de 2007 às 22:47
Tenta encontrar é muito bonita, isto se gostares de coisas piegas e da voz da Anastacia.
Entretanto, por estar a fazer 3 anos que vi um concerto dos Corrs no Pavilhão Atlântico, lembrei-me de uma outra música, de seu nome "No Frontiers", dos Corrs, lá está, que também fala naquilo que se consegue ver nos olhos de alguém. Igualmente bonita, pelo menos para mim. Se quiseres as ouvir, pesquisa no meu blog, elas estão lá as duas.
TheTalesMaker a 15 de Novembro de 2007 às 22:57
olha arms tb me puseste a sonhar... snifff tb quero um menino assim pra mim.

anastasia e lindo :) tive o prazer de a ver no pavilhao atlantico a ultima vez que esteve ca esteve. foi lindooooo
mik@ a 16 de Novembro de 2007 às 12:58
Sabes, este post lembra-me a maneira como conheci o meu namorado... Que por acaso não tem nada a ver com o que descreves no teu texto. "Procura-me tu agora. Porque eu levei a minha vida toda à tua procura". Foi exactamente esta sensação que tive, quando nos encontramos pela primeira vez. Escreves maravilhosamente. Nunca deixes de escrever, porque a escrita é a porta da nossa alma. ;)
Blue Mayfly a 17 de Novembro de 2007 às 10:23
mt bonito, gostei :)
VF a 17 de Novembro de 2007 às 14:40
Procura-me tu agora. Porque eu levei a minha vida toda à tua procura."
Bonito. Não vale a pena dizer mais nada. Apenas apreciar e sentir.
Graduated Fool a 22 de Novembro de 2007 às 00:41
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