09 de Julho de 2009

 Contando uma história triste ao contrário não a faz ter um final feliz

 

20.

Tudo cheira a pena e a metal esterelizado.

Subo para cima da cama do Pedro, apesar das enfermeiras me terem estritamente proibido. Ele fecha os olhos e segura-me firmemente, porque ele diz que, quando não me consegue ver, é mais fácil fingir que nunca aconteci na vida dele.

 

16.

Ele empurra o carrinho agressivamente pelo corredor abaixo, fingindo atropelar velhotas nas suas compras de Domingo.

- Pedro, pára!! - tento dizer entre as gargalhadas enquanto corro atrás dele atirando-lhe os pacotes de massas.

Por uns momentos ainda pensei que ele não me tinha visto atirar os pacotes quando bateram-lhe no peito, explodindo pelo chão. Não reparo nos olhos deles a revirarem-se ou na forma graciosa como o seu corpo cai no chão. A única coisa que reparo é num som distinto e abafado enquanto a cabeça de bate na parteleira e os gritos que poderiam ter sido, ou não, meus.

 

Mais tarde, no hospital ele chama-me e pede-me desculpa de ter andado a guardar segredos enquanto o médico se inicia numa explicação cientificamente correcto do pontod e vista médico sobre o seu cancro.

 

Só me lembro do olhar triste do Pedro.

 

13.

Há uma sombra nova por detrás do olhar de Pedro que eu sei que não devia da estar ali, mas ele desvia-se, distraindo-me com os seus beijos suaves e palavras doces.

- Estou preocupado contigo - digo. - Quero ajudar-te.

- Já ajudaste muito. - Pausa. - Amo-te muito. Irás lembrar-te disso?

- Porquê, está a planear ir para algum lado? - brinco.

- Sim.

- Para onde?

Ele não responde e, por momentos, começo a pensar que adormeceu, mas reparo nos seus olhos abertos a olhar para a parede, húmidos.

- Fala comigo. - imploro.

- Não há nada para contar. - murmura enquanto fecha os olhos.

 

 

11.

Depois de vários meses tentando é-me impossível relembrar de todos os momentos indescritíveis que passámos juntos - as gargalhadas profundas e sonoras, os passeios calmos, os silêncios de leitura nos cafés... o queixo dele, os sinais no seu pescoço, a forma cuidada como pronuncia as suas palavras, como se tivesse medo que a sua dicção lhe fosse escapar da boca.

 

Eu sei que estes detalhes acabam por não ter consequência e que deveria de nem me esforçar e acabar por esquecê-los.

 

Eu sei que não vou conseguir.

 

 

10.

Quase que nem reparo quando ele segura-me a mão pela primeira vez. Agarra de uma forma tão suave e quase questionável. 

- Eu não vou partir. - digo-lhe enquanto aperto os meus dedos em redor dos dele.

Ele sorri com um sorriso quase diagonal e olha para a distância.

- Tenho muito para aprender. - diz.

- Temos todo o tempo do mundo. - respondo e ele apenas ri.

 

 

8.

Faz uma semana e três dias que conheço o meu novo amigo e hoje descobri a cor preferida dele, a sobremesa preferida dele e os planos dele para o futuro.

 

Azul. Arroz-doce. Viver.

 

6.

Não sei porque concordei receber boleia de um quase-estranho mas ele propôs-se a levar-me a casa. Parámos em frente a um penhasco que dá para o mar.

- Onde estamos? - pergunto-lhe, sabendo que, algures durante a viagem, passámos para uma amizade sem termos tido consciência disso.

- Estamos onde devemos de estar, suponho.

 

 

3.

Não deve ser coincidência que o rapaz da festa se senta mesmo ao meu lado no balcão dois dias depois e pede um café com um sorriso charmoso. Assobia uma música quase conhecida e olha-me pelo canto do olho.

- Tu e eu vamos ter um certo tipo de futuro junto, penso. - e espera pela minha reacção, mas apenas suspiro.

- Ouve. Eu ainda nem sei o teu...

- Pedro.

- ...Ok!

 

 

1.

Sento-me ao lado de um rapaz cansado na festa do João, sentindo-me sozinho e ligeiramente embriagado. Não o conheço. Ele olha para mim de relance e fecha os seus olhos, sorrindo.

 

Eu realmente não sei de nada.

 

Agora o rapaz comete o erro de se recostar-se de lado, encolhendo as pernas, joelho com queixo, numa pose demasiado forçada, como se tivesse frio. Ele estica a mão ousadamente, de dentro de si mesmo, todo encolhido, e toca-me suavemente na mão. Consigo ver as suas omoplatas deslocadas pela posição, explodirem como a base de umas asas de anjo que tinham sido há muito arrancadas e. de repente, é só nisso que consigo pensar.

- Eu não te conheço. - digo-lhe quando entrelaça os seus dedos nos meus.

- Eu também não me conheço. - responde e depois sorri, luminoso. - Talvez me possas ajudar?

 

 

 

 

 

publicado por Arms às 13:38
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