22 de Agosto de 2007

Confesso que tenho imensa pena de te não conhecer como gostaria de te conhecer. Mas isso não é por minha culpa mas pela tua teimosia. Deixaste de falar comigo por razões que desconheço (desconfio quais sejam, no entanto) e puseste-me fora de casa daquela forma tão infantil. Mas não te posso culpar inteiramente pela nossa não-relação pai/filho. Também eu tive culpa no cartório. Talvez eu fosse demasiado orgulhoso para admitir que eu também tenha errado, embora a minha mãe diga o contrário. Mas tu, meu pai, que sempre me viste como um falhado, um fraco, alguém que nunca iria chegar aos teus calcanhares, como tão eloquentemente disseste uma vez - e que veio determinar grande parte da minha juventude, porque acreditei nisso durante anos. Só tenho pena que nunca tenhas tido a coragem (sim digo coragem) para ver para além da minha homossexualidade e veres quem o teu filho realmente é. Tenho pena que tenhas perdido o meu desenvolvimento como pessoa, mas tenho muito mais pena de nem eu te conhecer inteiramente. Sempre foste tão distante. Aquela figura muda da imagem tradicional de 'chefe de família'. Não me lembro de nenhuma conversa que tenhamos tido - conversa daquelas sérias, daquelas profundas. Conversas que sempre tive com a minha mãe... Tu, que me insultaste anos a fio, que me reprimiste, que me acusaste de corromper a minha família. Sempre tentaste impôr a tua vontade - sempre sem sucesso - para satisfazer essa pseudo-sensação de 'ser pai'. Enquanto a minha dava tudo para que eu seguisse os meus sonhos, tu sempre me reprimias e me tentavas cortar as asas. E essa tua característica foi a que mais me marcou (ainda, depois destes anos todos). Não me quebraste enquanto eu vivia contigo, mas conseguiste vincar a tua vontade na minha personalidade até hoje. A minha sequência de insucessos deveram-se ao facto de eu não me achar de valor e digno - e isso deveu-se às tuas constantes palavras de repressão. Mas não posso culpar-te por isso, eu poderia ser uma pessoa mais confiante e ignorar as tuas palavras. Mas agora, sete anos depois do último dia em que nos vimos - naquele dia em que me puseste fora de casa - posso dizer-te, confiante, que sim, concordo com a minha mãe: não posso nunca chegar aos teus calcanhares porque já os ultrapassei à muito tempo. Como ela disse, no dia em que disseste isso, eu já sou o dobro do homem que és. Não te digo isto como forma de exibicionismo - essa característica, felizmente, não tirei a ti - mas como forma de auto-valorização. E não te digo isto tudo como forma de vingança, mas é antes uma conclusão a que cheguei.


E posso dar-te finalmente a resposta à tua forma de despedida. Não sei se te lembras, mas as tuas últimas palavras para mim form: "Ainda vais precisar de mim. Ainda te vou ver a rastejar e pedir ajuda." Calei-me na altura, estava fragilizado. Mas agora não. Já não tenho medo. E já te posso dizer que não preciso, nem nunca precisei de ti. E não irei rastejar até ti, mas vou de cabeça erguida, porque tenho orgulho de quem sou.


E, de um forma destorcida, obrigado por teres definido a minha personalidade. Foste um bom exemplo da pessoa em quem eu pretendo não me tornar. E sei que tenho feitios igauis aos teus - a minha mãe diz isso por vezes - mas sei que os melhores não são de ti, mas partiram de exemplos de quem és.


Enfim, nada tenho a dizer-te. Apenas espero que um dia me venhas a conhecer realmente... mas não fico à espera sentado.
Adeus

publicado por Arms às 21:27
compreendo profundamente aquilo que sentes em relação ao teu pai. o meu destruiu-me a minha vida e tortura-me todos os dias.

abraço
bacon a 23 de Agosto de 2007 às 18:02
No more words... :-(
GaYBRIEL a 25 de Agosto de 2007 às 18:39
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