27 de Abril de 2006

(Texto que eu escrevi em 1998)

Marco já estava há espera do gajo há já 15 minutos, e não se iria embora enquanto ele chegasse. O homem pálido surgiu por detrás dele e arrastou-o para dentro do bêco, longe dos olhares que os poderiam incomodar. Trocaram o dinheiro e seguiram os seus caminhos separados. Marco estava agora aliviado... Ligeiramente. Começou o seu passeio de três quarteirões até ao seu prédio. Passou por incontáveis bêbedos e rejeitados inúteis, mas, no fundo ele era tão sujo e inútil quanto eles. Mas Marco tinha uma coisa melhor, muito melhor. Passou por uma prostituta, e depois outra, e por muitas mais. Elas já não têm importância, a carne é tão insignificante comparado com os prazeres do sangue.

Nunca teve um emprego e nunca se importou. Podia roubar o suficiente, e teria sempre essa vantagem. Ao princípio não passava de um passatempo, mas depressa se tornou algo para o manter vivo. Televisores, rádios de automóveis, carteiras, jóias, pensamentos, tudo o que pudesse servir para Marco manter o seu vício. O seu batia-lhe. A sua mãe batia-lhe. Todos lhe batiam e rasgavam tudo o que o pudesse se tornar num homem.

Chegou finalmente ao seu apartamento. A porta não tinha fechadura e nem era preciso. Os excrementos de ratos e as baratas mortas mantinham longe todos os que se mostravam curiosos. Marco já nem reparava no cheiro a fezes e nas paredes podres... tudo o que ele precisava era de uma colher, da seringa, de uma vela e do pó. Empurrou o sofá vomitado para o lado e atou o seu cinto à volta do braço, expondo as suas veias tenras. Agora a concentração era crucial. Ele teria que ignorar toda aquela estática ameaçadora dos seus ouvidos. Encheu a seringa enquanto o zumbido aumentava.

A estática era suave, delibrada, repetitiva, persistente. Era um som sem propósito para o momento, mas impossível de ignorar. Marco enfiou a agulha no seu braço e forçou o conteúdo o mais rápido que pôde. Caiu para trás, sobre o chão e esperou que o transe viesse e trouxesse a única paz que jamais conhecera. Mas tudo o que sentiu foi a estática. Bateu com o seu crânio no chão para fazê-la parar, mas não parou. Ia apenas aumentando. E aumentava, aumentava. Começou a ficar zonzo, mas isso já era esperado.

Chorou enquanto perdia os seus sentidos, porque ele perdeu tudo, e perdeu os céus. O barulho era demasiado alto agora. Drenava-lhe os seus pensamentos. Os seus olhos vidraram enquanto ele se deitava, imóvel, no chão desejando que a estática parasse. Perdeu totalmente os sentidos enquanto o som abusava do seu corpo, tornando-se mais presente e controlador. Mais alto. E mais ainda. A estática não parava e Marco sabia que nunca iria parar.

Os seus pulmões encheram-se de saliva e espuma e outros incontáveis flúidos, e engasgavam-se para fora da sua boca. O vómito resultante afogavam-lhe os olhos e o chão à sua volta. Já não conseguia respirar quando desisitiu e se entregou àquele zumbido confortavelmente controlador.
publicado por Arms às 07:10
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