14 de Janeiro de 2008

(Mais um esboço de algo que mais tarde se assemelhará a um conto...)

Sentado no banco de jardim olhando para as nuvens densas deslizarem para um canto do céu, provavelmente para um lugar onde nunca poderá ir ou estar - como este lugar. E a vida a escorrerem-se-lhe pelo rosto. As memórias. As lembranças que anseia esquecer, que anseia largar. Os sons dos seus risos e das suas palavras. Os cheiros da sua pele e do seu suor. Os sabores dos seus lábios. Mas, mais que tudo o resto, a textura e a temperatura da sua pele ainda tatuados nele. E chorou os seus desejos, soluçando por entre cada pensamento do que lhe havia sido feito. Não deviam de ter feito tudo para que terminasse assim. Não deviam de ter dito as palavras que o magoavam daquela forma. Não o deviam de ter afastado. E a chuva caindo copiosa sobre os seus ombros encolhidos. As memórias, caindo, uns atrás dos outros, a conta gotas sobre o chão lamacento da sua alma. Sentia-se apertado, como se a sua pele tivesse encolhido e tudo lhe prendia. Sentia-se dorido, como se lhe tivessem batido, espancado, com bastões. A sua garganta estava arranhada, como se ele tivesse engolido papel de areia ou lixa. Os seus olhos doiam-lhe como se lhe tivessem enfiado agulhas. Mas a sua alma estava rasgada, esfarrapada, como se a tivessem arrastado pelo chão durante quilómetros. Chovia compulsivamente e ele chorava torrencialmente. Como se ele e o mundo tivessem ambos sido destruídos por dentro. A chuva... Sempre a mesma chuva. E ele ali, com aquele sentimento de perda. Sempre o mesmo sentimento. E perdeu tanto tantas vezes. Mais do que quereria admitir. Para ele a vida era uma sucessão de decisões erradas e azares triunfantes. Mas ele tinha sempre a chuva... Só e apenas a chuva o confortava. Sempre.

Levantou-se lentamente, como se o corpo se cansasse da sua própria existência, e tentou secar as suas lágrimas. Os seus olhos estavam tão vermelhos e com a sensação de que tinham inchado. O seu nariz, dorido, parecia-lhe cair a qualquer momento. A dor já lhe havia passado ligeiramente com o amainar da chuva. E, debaixo da mesma chuva de sempre, foi para casa. Como sempre.
publicado por Arms às 02:40
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Com um dia como o de hoje, "ELE" vai apanhar para uma esplanada e sorrir. Não achas boa ideia?

Aquele abraço!
Kokas a 14 de Janeiro de 2008 às 12:03
Não te esqueças que também a chuva, ou seja, a água, é um elemento purificador, de renascimento, recomeço para uma nova vida, etapa, estágio, estádio, etc.
TheTalesMaker a 15 de Janeiro de 2008 às 20:48
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