18 de Novembro de 2007

Estou cá fora, sentado no banco do alpendre, embrulhado no cobertor, de pantufas - aquelas que imitam patas de Tigre. As que me ofereceste para os meus anos, lembras-te? - a beber chocolate quente (a tender para o escaldar) olhando a neve cair. Tenho frio na ponta dos dedos e tremelico por todos os lados, mas isso não importa quando assisto a estes pequenos flocos brancos translúcidos cairem. Parecem farrapos de algodão, ou as sementes de dente-de-leão. Só que húmidos. Espero por ti nesta noite de reflexos brancos. Porque sou o único cá fora a ver isto? São duas da manhã e ainda não chegaste - ah! ok! São duas da manhã. Não há muita gente acordada a este hora para ver a neve. - e não sei quanto tempo demorarás. Disseste que voltarias cedo a casa mas depois lá tiveste que ir àquele sítio (não fixei o nome) tratar de sei lá o quê (que também não fixei). Fiquei preocupado porque deu-me aquele aperto no peito - sabes quais, aqueles que me dão quando sinto que algo de mal irá acontecer - quando desligaste o telemóvel com aquele 'amo-te' tão distante, tão forçado. Posso até estar a fazer filmes e a imaginar coisas, mas confesso que foi o que senti. E agora estou aqui, ao frio, com o chocolate quente a ver a neve cair à tua espera.
Ah, chegaste! Finalmente. Levanto-me do banco do alpendre e sorrio. Mas o meu sorriso congela e quebra-se quando olho para ti. Basta-me um olhar para saber. Sobes as escadas do alpendre, com as mãos nos bolsos, como se tivesses vergonha. O teu corpo mexe-se enquanto falas como uma criança tímida. Olhas para mim com esse olhar. Porquê? Estás a falar mas nenhum som sai da tua boca. É como se eu estivesse a ve rum filme mudo. Não preciso de ouvir o que tens para dizer, basta-me olhar para ti. Sentimentos indescritíveis surgem cá dentro, parecem borbulhar, subindo e subindo. Deixo cair a caneca de chocolate quente, que se parte em pedaços salpicando para todo o lado. Nem me mexo para desviar. Caem salpicos na neve, manchando-a de castanho metálico. Levas um estalo. Um estalo apenas.
Rodas sobre os teus calcanhares e partes. Furioso. Engraçado! Tu fazes a porcaria que fizeste e és tu quem fica furioso... Fico ali, de pé no alpendre - com as pantufas de tigre que me deste pelos anos nos pés - a olhar para o teu carro a escorregar e patinar sobre o gelo até te ires embora. Fico ali a olhar quando já nem as luzes do carro eu vejo. E fico ali.

Foste-te embora mas acho que esqueceste da tua sombra na neve à minha porta. Não estarei cá quando a vieres buscar.
publicado por Arms às 03:56
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